(ou "Como Odete Reutmann Não Mudou Minha Vida")

Olhar despretencioso pela Janela Lateral da Maria Fumaça que serpenteia entre as belezas e falácias do cotidiano

setembro 29, 2008

Escrevi várias músicas já. No começo eram sempre instrumentais, mas como me falta o talento criador de um músico decente, aos poucos fui abandonando o estilo. Comecei a escrever. Descobri em pouco tempo que também não levo jeito pra coisa. Escrevo de doença, insistência, descarga. E porque gosto também, né, convenhamos...
Mas não é que me cai no colo uma música boa com uma letra boa? nunca consegui conciliar ambos num trabalho só. NOVA VISTA chegou pra dar uma injeção de morfina no morimbundo que já pensava noutra forma de arte para se manifestar, como quem diz: "Insiste mais, peste!"
Quando eu conseguir uma BOA placa de som prometo gravar, enviar pruns caras MASSA que conheço que dão mó tapa de harmonia e solos e postar neste espaço. Creiam. Eu não cri!?!?
Nova Vista é o nome do bairro onde passei praticamente toda a infância. Hoje já está bem "normal", mas no início dos 70 era tipo uma super periferia de BH, ou seja, uma delícia. Nem Carlos Drummond de Andrade deve ter tido uma meninice como a minha. Perfeita, eu diria. E me perdoem o 'deve ter tido'. Segue sem mais delongas.

NOVA VISTA

pipa ligeira
eleva contigo sonhos imortais
sobe ladeira
moleque feliz encontrar teus iguais

pula outro muro
resgate herói bola de todos nós
roupa bonita
menina da esquina vem hoje brincar


Liberdade abraça

praça eternal
Nova Vista de um longe
velho tempo bom
de correr
de cair
levantar
e amar

Mcl

Mau Humor (by Lula Vieira)

ABRE ASPAS

Não me lembro direito, mas li numa revista, um artigo levantando a hipótese de que todo o cara que tem mania de fazer aspas com os dedinhos quando faz uma ironia, é um chato.

Num outro artigo alguém escreveu que achava que jamais tinha conhecido um restaurante de boa comida com garçons vestidos de coletinho vermelho.

Joaquim Ferreira dos Santos, em "O Globo" de domingo, fala do seu profundo preconceito com quem usa as expressões "agregar valor", ou "adentrar", ou "preconiza".

Eu posso jurar que toda mulher que anda permanentemente com uma garrafinha de água e fica mamando de segundo em segundo é uma chata. São preconceitos, eu sei. Mas cada vez mais a vida está confirmando estas conclusões.

Outra coisa... odeio bêbados mas quem não gosta de uma cervejinha com os amigos, só pode ser um chato. Não tem a menor graça namorar alguém assim.

Um outro amigo meu jura que um dos maiores indícios de babaquice é usar o paletó nos ombros, sem os braços nas mangas. Por incrível que pareça, não consegui desmentir. Pode ser coincidência, mas até agora todo cara que eu me lembro de ter visto usando o paletó colocado sobre os ombros é muito babaca.

Já que estamos nessa onda, me responda uma coisa: você conhece algum natureba radical que tenha conversa agradável?

O sujeito ou sujeita que adora uma granola, só come coisas orgânicas, faz cara de nojo à simples menção da palavra "carne", fica falando o tempo todo em vida saudável é seu ideal como companhia numa madrugada? Sei lá, não sei.

Não consigo me lembrar de ninguém assim que tenha me despertado muita paixão.

Eu ando detestando certos vícios de linguagem, do tipo "chegar junto", "superar limites", essas bobagens que lembram papo de concorrente a big brother.

Mais uma vez, repito: acho puro preconceito, idiossincrasia, mas essa rotulagem imediata é uma mania que a gente vai adquirindo pela vida e que pode explicar algumas antipatias gratuitas. Tem gente que a gente não gosta logo de saída, sem saber direito por quê. Vai ver que transmite algum sintoma de chatice.

Tom de voz de operador de telemarketing lendo o script na tela do computador e repetindo a cada cinco palavras a expressão "senhooorr", me irrita profundamente. Agora, detestar uma pessoa só porque usa a Times New Roman em suas digitações, é demais. Vamos com calma.

Se algum dia eu matar alguém, existe imensa possibilidade de ser um flanelinha. Não posso ver um deles que o sangue sobe à cabeça. Deus que me perdoe, me livre e me guarde, mas tenho raiva menor do assaltante do que do cara que fica na frente do meu carro, fazendo gestos desesperados tentando me ajudar em alguma manobra, como se tivesse comprado a rua e tivesse todo o direito de me cobrar pela vaga. Sei que estou ficando velho e ranzinza, mas o que se há de fazer?

Não suporto especialista em motivação de pessoal que obrigue as pessoas a pagarem o mico de ficar segurando na mão do vizinho, com os olhos fechados e tentando receber "energia positiva".

Aliás, tenho convicção de que empresa que paga bons salários e tem uma boa e honesta política de pessoal não precisa contratar palestras de motivação para seus empregados. Eles se motivam com a grana no fim do mês e com a satisfação de trabalhar numa boa empresa. Que me perdoem todos os palestrantes que estão ficando ricos percorrendo o país, mas eu acho que esse negócio de trocar fluidos me lembra putaria.

E, para terminar: existe qualquer esperança de encontrar vida inteligente numa criatura que se despede mandando "um beijo no coração"?

FECHA ASPAS